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Reflexões da Psy

Blog de partilha de ideias. Ideias que se relacionam com o ser e o estar, o tempo e o espaço. Ideias que preenchem o quotidiano simples e vulgar, saudável e feliz. Ideias que descomplicam o caminho e simplificam os pensamentos.

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17
Jan21

Viram por aí a minha vontade

Susana Gonçalves

...de fazer algo?

Escrevem os autores do livro "Mindfulness - atenção plena" que não há nada que ative mais o sistema de evitamento da mente (e diminua o sistema de aproximação) do que sentirmos que estamos a ser encurralados.

E, se já sentíamos isto quando nos condicionávamos às nossas rotinas, então agora que as nossa rotinas estão condicionadas, assim como os nossos movimentos, a expressão das emoções e as alternativas de diversão, ficámos muitíssimo pior.

Continuam, Williams e Penman a escrever que "esta sensação de se estar encurralado também é central nos sentimentos de exaustão e impotência". Depois, oferecem o exemplo de pessoas que trabalham intensamente, durante muito tempo, que acabam por ficar assoberbadas pelo próprio perfeccionismo e sentido de responsabilidade, ficam aprisionadas num modo de fazer, sem perspetiva de uma escapatória, sem o vislumbre de que algo pode ser diferente, melhor, mais libertador.

De acordo com os autores, se desenvolvermos tarefas contrariados, iremos ativar o sistema de aversão da mente e reduzir os horizontes da nossa vida, torna-mo-nos mais ansiosos, menos criativos, menos flexíveis.

E isto, não é de certeza a vida que queremos para nós.

Mas como ativar o sistema de aproximação?

Dizem os autores que devemos desempenhar as nossa tarefas e papéis na vida de coração aberto, de uma forma recetiva.

Ontem, por coincidência, ou não, para além de ler o excerto correspondente à terceira semana deste programa de mindfulness também fui ver um filme ao acaso e ao acaso surgiu um filme português de 2018, de Luís Diogo: "Uma vida Sublime".

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Neste filme, um médico, o Ivan (o terrível), que manifestava uma perturbação da personalidade, era muito manipulador e estava convencido que poderia mudar a vida dos outros, as vidas, que na sua perspetiva, não eram felizes.

O Ivan avaliava a felicidade das suas "vítimas" pela observação. Observava os seus comportamentos e expressões faciais, avaliava-os e assim escolhia os que iriam fazer parte das suas experiências maquiavélicas.

Com muitos, usava a sua condição de médico oncologista, para levantar a forte suspeita de que estariam com um cancro quase terminal e por isso teriam pouco tempo de vida. Esta notícia causava uma angustia terrível nas pessoas que ficavam muito ansiosas aguardando, em segredo, o resultado confirmatório dos exames mais detalhados. Quando os exames chegavam, o Dr. Ivan dava-lhes os parabéns e explicava claramente que não padeciam de doença oncológica. Esta notícia, depois de um período de tristeza, ansiedade, caia como uma poção mágica e, durante algum tempo, estas pessoas apáticas, tristes eram capazes de se sentirem mais vivas do que nunca e usufruírem da sua vida com uma qualidade superior. 

Havia ainda outras vítimas, as quais o Dr. Ivan submetia a um tratamento de choque, diferente e mais rebuscado.

Raptava os tristes, prendia-os e humilhava-os. Atirava-lhes à cara a "vida triste" que viviam, a ausência de motivos ou fontes de prazer, para apreciarem a sua vida e por isso, ia-lhe tirando os sentidos, pois, na sua opinião, eles não os usavam e não precisavam assim tanto deles. E assim, as vítimas perdiam o olfato, o paladar, o tato, a visão e a audição, por ação de umas injeções que deviam anestesiar ou paralisar os terminais nervosos dos sentidos. A situação era tão aflitiva, que quando uma das vítimas acorda, abandonada no meio da floresta, a ver, ouvir, sentir os cheiros, o paladar e o tato, sente-se como se estivesse no paraíso, como se tivesse renascido, mais feliz do que nunca.

Perverso, chocante mas de facto o método usado pelo Dr. Ivan por ser radical, tornava-se eficaz, funcionava como uma terapia de choque para despertar a mente, apurar os sentidos e provocar a mudança. Uma mudança que se fazia no sentido de estarmos mais atentos às mais pequeninas coisas que nos rodeiam, de lhes dar importância, de viver o presente com a felicidade genuína de quem é feliz apenas por respirar.

O Dr. Ivan foi descoberto, criticado por uns e agradecido por outros, alguns reconheciam que, apesar da manipulação intencional e não solicitada, esta foi uma forma de atingirem momentos de grande felicidade, outros esclareceram o Dr. Ivan, de que os padrões de felicidade ou infelicidade dele poderiam não ser os únicos, ou os melhores, sendo assim, existiam pessoas que, apesar de viverem uma vida monótona, rotineira, era essa a vida com que se sentiam bem e era essa a vida "triste" que queriam viver, sendo felizes à sua maneira.

Ainda assim, ninguém passa por uma experiência desta sem daí tirar consequências e claro que as vítimas passaram a apreciar muito mais, mesmo as rotinas que tinham, e procuraram realizar sonhos, ou desenvolver talentos esquecidos, reprimidos pela falta de tempo, que é desculpa para a falta de vontade.

Neste momento também nós estamos a ser vítimas, não do Dr. Ivan, mas do Coronavírus, que nos retira a oportunidade de tantas coisas, as quais nem valorizávamos assim tanto mas que nos fazem afinal tanta falta. Quando tudo isto passar uma multidão de gente a saltar e a dançar num concerto, num baile ou discoteca, trará uma sensação de aperto e desconforto tão melhor... bendita normalidade!

O desafio que nos é colocado, seja por que Ivan ou vírus for, será despertarmos a nossa vontade para vivermos aquilo que nos é permitido, no pouco, ou na rotina, mas que o façamos com o sentido de apreciar, de beneficiar, de fazer bem. Só um exemplo ilustrativo: alimentar-mo-nos não será comer tudo o que está no prato, engolir quase sem mastigar, mas sim fazer de cada momento uma festa dos sentidos, uma homenagem à vida.

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